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Homenagem

Filipe de Sousa

Pianista, Compositor, Maestro, Investig

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por António Valdemar, jornalista, da classe de Letras da Academia das Ciências

por António Valdemar, jornalista, da classe de Letras da Academia das Ciências

Retrato incompleto de um amigo completo

Há situações terríveis e que, muitas vezes, é difícil aceitar: a morte de um familiar ou de um amigo com quem existia uma relação profunda quotidiana. Filipe de Sousa tem sido, para mim, um destes casos. Mantivemos um convívio de mais de meio século de inalterável amizade. Conheci-o quando ele trabalhava, como secretário-geral, no Círculo de Cultura Musical, fundado e dirigido por Elisa de Sousa Pedroso que, durante sucessivas décadas, exerceu uma acção da maior importância, não apenas em Lisboa mas através de todo o País.

Todavia, nos anos 50, – quando inicio o meu contacto pessoal com Filipe de Sousa – Elisa Pedroso já se encontrava bastante marcada pelos anos. Muitas das iniciativas do Círculo de Cultura Musical já eram sugeridas e concretizadas por Filipe de Sousa, um jovem que fizera, com as mais altas classificações o Curso de Piano do Conservatório e, simultaneamente, se licenciara em Filologia Clássica, na Faculdade de letras de Lisboa.

Filipe de Sousa tinha um horizonte intelectual fora do comum e um desejo imenso de saber e conhecer cada vez mais. Tanto no Conservatório como na Faculdade de Letras integrou uma geração de figuras que se tornaram, aliás como ele próprio, de referência obrigatória. Completou a formação musical na Alemanha. Tirou os cursos que necessitava para se afirmar como pianista, compositor e maestro. Sempre com altas notas. Conviveu com grandes personalidades, da música, das artes plásticas, da literatura. Ao regressar a Portugal ingressou na Rádio Televisão Portuguesa. Foi chefe do Departamento de música. Era de uma competência e idoneidade exemplares. Produziu numerosos programas para a divulgação de obras dos nomes mais representativos da História da Música em Portugal. Leccionou no Conservatório. Pertenceu ao sector musical da Gulbenkian.

Se a sorte em várias circunstâncias lhe foi adversa, em muitas outras circunstâncias, Filipe de Sousa possuiu meios de fortuna para viver a vida que lhe apetecia e se rodear de tudo quanto lhe interessava; um extraordinário acervo musical; quadros e outras obras de arte de notáveis autores portugueses e estrangeiros; e, ainda, uma vasta e diversificada biblioteca de clássicos e modernos portugueses, italianos, alemães, ingleses, espanhóis e franceses que abrangia, fundamentalmente, a música, a literatura, as artes plásticas.

Multiplicavam-se as edições raras. Possuía a colecção – quase integral, o que é um prodígio – dos livros, opúsculos e panfletos de José Agostinho de Macedo; todas as edições de António José da Silva, uma das suas paixões; todas as edições e a maioria das traduções de Cesário Verde, Camilo Pessanha e Fernando Pessoa. Não hesitou – posso testemunhá-lo – em pagar largas centenas de contos, ou já milhares de euros por livros autografados por Fernando Pessoa, os poucos que publicou em vida; e alguns da biblioteca de Pessoa que apareceram em leilões e em alfarrabistas.

Também foi um mecenas: pagou a edição de livros de música de reconhecido mérito. Correndo sérios riscos – e houve alguns lastimáveis – colocava, sem restrições, à disposição de investigadores, em especial jovens, livros, manuscritos, e partituras da sua colecção, repleta de espécies únicas.

Conservou Filipe de Sousa, amizades que vinham do Liceu Camões, do Conservatório, da Faculdade de Letras, da Televisão e muitas outras que surgiram no decurso da vida. Um dos seus maiores prazeres era o convívio. No seu escritório no Chiado constituiu uma tertúlia que reunia, em cada dia, consoante as afinidades electivas – que seleccionava com extremo cuidado – os amigos que estimava e eram de todas as opções políticas e religiosas. Nesses lautos almoços, que se prolongaram por mais de 20 anos e avançavam pela tarde com vinhos admiráveis e whiskies excelentes, apenas havia uma limitação: não abordar questões de natureza partidária que pudessem ferir susceptibilidades. De resto, falava-se de tudo e de todos. No entanto, Filipe de Sousa também fazia questão de impedir alusões à vida privada de quem quer que fosse. Estas as únicas atitudes drásticas que assisti – quando houve motivo para isto – do mais aberto e tolerante dos amigos.

Considero um dos privilégios da minha vida ter participado, com assiduidade, nessa tertúlia, de opulenta gastronomia portuguesa e à qual deu o nome de Mandíbula de Aço. Mas, além disto, sucediam-se os encontros, nas nossas casas, em casa de amigos comuns, em inúmeras viagens dentro e fora do País. Para ouvir um concerto. Para ver um Museu ou uma exposição. Para a descoberta de uma paisagem. Para ir a um restaurante famoso. Para sentir as grandes e pequenas coisas que dão sentido e plenitude à vida.

A doença progressiva e a morte inevitável de Filipe de Sousa abalaram-me, profundamente. Decorrido um ano, ainda, não me consigo habituar à sua ausência. Sempre que recordo o convívio de Filipe de Sousa, reconheço que, sem o calor humano da sua presença e a irradiação cultural do seu espírito, fiquei muito mais pobre. Também morreu uma parte de mim mesmo.

Novembro de 2007

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