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Homenagem

Filipe de Sousa

Pianista, Compositor, Maestro, Investig

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por Constantin Sandu, pianista

por Constantin Sandu, pianista

Conheci Filipe de Sousa em Maio de 1991, quando fiquei hospedado em sua casa por ocasião do Master-Class de Sequeira Costa na Fundação Gulbenkian. Desde o início fiquei fascinado com a sua personalidade – uma vastíssima cultura, um gosto requintado e um sentido de humor fora do vulgar. Talvez por sentir na altura falta da minha família ainda a um nível agudo, pois tinha–me afastado de Bucareste somente sete meses antes, Filipe de Sousa lembrava-me sempre o meu pai. A sua residência, o Casal de S. Bernardo (o proprietário tinha um grande carinho e admiração por este santo), situada num lugar de sonho, nas colinas entre Malveira e Mafra, perto de Alcaínça, era grande e recheada de pinturas e esculturas, pois uma das paixões de Filipe de Sousa era a arte plástica moderna e contemporânea. Não sei se haverá muitos artistas plásticos portugueses actuais de relevo que não fossem representados com pelo menos uma obra naquela casa. Na sala imensa, perdiam-se dois pianos de cauda, um deles Steinway modelo C; por outro lado, a biblioteca e a discoteca eram notáveis em quantidade e qualidade.

Estive hospedado várias vezes no Casal de S. Bernardo, pela última vez em Julho de 2004, quando passei lá um fim de semana, no intuito de recolher elementos para a minha tese de doutoramento sobre a música portuguesa para piano, tendo-lhe nela dedicado um capítulo. As estadias foram sempre muito agradáveis; a simpatia, a elegância e o bom humor completavam o refinamento e a elevação cultural e espiritual que o caracterizavam.

O seu estilo musical cristalizou-se com base em influências de Stravinsky, Bartok, Hindemith, adquirindo uma linguagem própria, funcional na essência, que (tal como o próprio afirmava) não pode ser classificada como neoclássica, muito menos impressionista. A principal fonte de inspiração foi a poesia (também devido à sua formação literária), constatando-se daí uma preponderância para a música vocal, sendo poetas como Camilo Pessanha e Fernando Pessoa dos mais próximos da sua alma. Não aderiu às inovações da segunda parte do século XX, nem ao fenómeno Darmstadt, contudo, estava sempre interessado no que era mais actual e moderno na composição, tentando perceber as razões e as motivações íntimas dos vanguardistas.

No entanto, ficou sempre com dúvidas acerca da música de vanguarda e pensava que havia uma “destrinça a fazer entre uma peça musical com um conteúdo humano, de expressividade (que eu acho que vem através do canto; e canto é melodia), ou então um objecto musical (acho que é a melhor definição que posso dar a certa música, com interesse, naturalmente, mas esvaziada de conteúdo expressivo, de um conteúdo humano); podem ser objectos musicais lindíssimos, que me podem fascinar, mas que não representam para mim uma obra verdadeiramente humana, uma peça musical. Porquê? A anulação do sentido tonal das músicas. Partindo de um princípio genérico e básico (algo na linha das ideias de Hindemith e da obra Fundamentos da música na psicologia humana de Ansermet – n. a.), em toda a música existem focos tonais, porque há uma razão natural, física e ninguém pode transformar a própria natureza. O som base com os seus harmónicos é um mundo indestructível; por outro lado, há um mundo indestructível que é a nossa formação física, o sistema auditivo: o receptor está feito para receber o som e os seus harmónicos todos; foi nesta base que se criou e se desenvolveu o sistema europeu de harmonia, que evoluiu com o tempo e finalmente desaguou na atonalidade; há um percurso natural no mundo sonoro, mas o receptor continua a ouvir numa base tonal. Por isso, estou convencido que no futuro haverá um retorno à tonalidade, porque nós ouvimos funcionalmente, é a nossa base natural, física.”

Esta citação releva o seu pensamento musical e explica o facto de ter sido, talvez, um dos compositores mais conservadores da sua geração, pese embora as suas experiências sonoras mais arrojadas, que existiram, mas sem o terem conquistado de maneira definitiva. Por essas e por outras (parafraseando-o), Filipe de Sousa pode ser considerado um dos mais importantes compositores portugueses do século XX e foi, sem dúvida, uma das personalidades mais cativantes da música portuguesa.

Julho de 2007

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