II Encontro de Macau

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Homenagem

Filipe de Sousa

Pianista, Compositor, Maestro, Investig

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por David de Almeida, artista plástico

por David de Almeida, artista plástico

Conheci o Maestro Filipe de Sousa nos anos 80. Fomos apresentados nos jardins do Palácio dos Coruchéus, onde então tinha atelier, quando se discutia um projecto ligado a um livro-objecto que incluiria as Artes Plásticas, a Gastronomia, a Literatura e a Música, para o qual fui arrolado.

Tratava-se de um projecto destinado a um laboratório de produtos farmacêuticos que se foi discutindo à volta da mesa – como era inevitável – mas que ficou pelo caminho, abortado pelo patrocinador.

O que não ficou pelo caminho, o que perdurou, foi uma amizade com base na admiração e no respeito mútuos ao longo de mais de 20 anos.

Almoçava com a frequência possível na Mandíbula de Aço, última tertúlia do Chiado nas palavras do Professor Juvenal Esteves, onde conviviam – nem sempre de forma tão pacífica como a ingenuidade do Maestro o levava a crer – mesários que podiam chegar tanto de Aveiro como de Lisboa, do Brasil ou de Macau, arrancados aos mais inesperados quadrantes políticos (recordo com saudade a última tarde, última para todos nós, com o Maestro Camargo Guarnieri).

Também à mesa, a sua cultura e o seu humor não davam lugar a quebras de ritmo na conversa.

Alguns dos convidados, pela primeira vez na roda, ficavam fascinados com as impossíveis histórias da tia Eulália do Maranhão ou do crocodilo com que o Filipe teria cohabitado numa residência na zona das Amoreiras, para onde o animal fora levado ainda bébé e que ali crescera até ter atingido cerca de três metros. Por vezes, quatro, dependia da inspiração do momento.

Teria saído por uma janela, içado por um guindaste.

O mais difícil era depois convencê-los de que se tratava de uma brincadeira, tais eram os pormenores com que enroupava estas encenações.

Em 1987 comprei um terreno em Alcainça e aqui nos deslocámos para lhe dar a conhecer a terra em questão, pois o Filipe insistia em ver o lugar, talvez levado pelo entusiasmo com que lhe falava desta região de vulcões extintos (há muito tempo, felizmente).

Cerca de uma semana depois desta visita, o Filipe comprava uma propriedade que confinava com a minha, iniciando a construção do Casal de S. Bernardo, que daria corpo ao seu sonho: ter um lugar que albergasse o seu acervo musical, os seus discos e livros. O sítio onde em sossego escrevesse a sua obra, onde libertasse os livros amontoados na casa de Cascais, os discos e peças de colecção  dispersos pelas casas de alguns  amigos, o espaço onde pudesse fruir a sua colecção de arte, onde convidasse os seus amigos para tocar ou ouvir música,  onde pudesse com eles ensaiar em boas condições acústicas.

Assim foi acontecendo não com a frequência com que o sonhou, mas da forma que lhe foi sendo possível.

Para aqui se foi transferindo também um pouco do espírito da Mandíbula de Aço.

Dadas as minha relações profissionais com Espanha, começou a acompanhar-me nas viagens de trabalho a Madrid e a Barcelona, visitando galerias e museus, dando início à sua colecção de Arte Contemporânea Espanhola – de Gravura na sua maioria, obras emblemáticas e raras algumas delas. Chillida, Miró, Rueda, Picasso, Sempere ou  Tapies, são alguns dos Artistas consolidados por um percurso reconhecido, mas não lhe passaram ao lado as gerações mais jovens como Barceló, Broto, Ciria, Lamazares, Saskia Moro, Sicília, Soledad Sevilla e tantos outros.

Em Madrid instalei o Maestro no Hotel Liabeny - eu frequentava-o desde a sua abertura nos anos 70 – donde nunca mais deixou de ser cliente e onde era tratado e estimado como pessoa de família, como o Artista que era, um hóspede especial.

Situado na Plaza del Carmen, estava a dois minutos da livraria Espasa-Calpe na Gran-Via onde comprava os livros que mais lhe interessavam e a cinco minutos da FNAC ou do El Corte Inglés onde comprava os discos que encheriam as malas que levara vazias (normalmente viajávamos de carro) apenas para isso: trazer livros e discos.

Este acervo tem uma marca muito pessoal, uma peça completa a outra, um quadro pode ser o complemento de um livro, uma gravura pode ser uma viagem, um livro uma procura de meses.

Era seu objectivo manter intacto este núcleo tão pessoal, para que assim pudesse ser visto e consultado.

Quanto a mim, uma das razões, a principal razão, era a de que não se importaria de revelar – talvez até o desejasse -  após a morte, aquilo que sempre quiz preservar em vida – a sua intimidade, ou melhor, o seu íntimo.

Um dia manifestou o desejo de deixar os seus bens a uma fundação ligada a Macau. Nos últimos anos deslocara-se muitas vezes ao Território por razões profissionais, ou simplesmente por gostar de por ali vaguear em passeios curtos (esperaria deparar-se com Pessanha ao dobrar de uma esquina?). Ali me acompanhou durante algumas viagens de trabalho apenas para estar, para visitar amigos, para sentir os cheiros ou para ficar de olhos brilhantes e sorriso largo perante a cozinha chinesa.

Admirador da obra e da personalidade do último Governador de Macau, perguntou-me um dia o que sabia eu da Fundação Jorge Álvares. Dei-lhe as informações de que dispunha, entreguei-lhe uma colecção do Boletim Informativo de Fundação e, alguns meses depois – reflectiu muito sobre a atitude a tomar, o que nem sempre era habitual no Maestro – pediu-me, sabendo-me um indefectível do General Rocha Vieira, se eu podia organizar um encontro privado, o que veio a acontecer na minha casa, em Alcainça.

E foi assim que, em paz e por sua vontade exclusiva, foi iniciado o processo de doação de todo o seu património à Fundação Jorge Álvares.

Partiu descansado, com a noção do dever cumprido.

Por aqui fiquei eu mais só, tinha à mão um amigo que era um sábio e que partiu deixando uma mão cheia de promessas por cumprir.

A mais importante foi a de que viveria até aos cem anos, pois provinha de uma família de macróbios. E esta eu não lhe perdoo.

Alcainça, 24 de Junho de 2007

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