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Homenagem

Filipe de Sousa

Pianista, Compositor, Maestro, Investig

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por Elsa Saque, cantora lírica

por Elsa Saque, cantora lírica

in memoriam

"A memória é um museu, uma variedade imensa de estátuas e quadros; uns, animados pela dor, outros, pela alegria. E todos surgem ao luar que encanta a noite do Passado. Surgem, velados de uma ternura dolorida. que é uma névoa de lágrimas não choradas .”

 Teixeira de Pascoaes, Livro de Memórias

Evoco hoje uma figura marcante da minha juventude e que, ao longo dos anos, comigo se foi cruzando nestas veredas a que chamamos vida. Muitas recordações, factos esparsos, visões fugazes por vezes, enfim, momentos que constroem uma longa e sólida amizade, e a perpetuam ainda agora através da saudade.

Meu Professor no Conservatório, Filipe de Sousa começou por moldar a minha adolescência; generoso, fez-me acompanhá-lo no meu início de carreira - estivemos juntos nos meus primeiros recitais, na preparação e representação de óperas portuguesas do séc. XVIII, que o Maestro, de personalidade ecléctica, ávido de conhecimento, recuperou, ao longo dos anos, em diversos Arquivos do País. Acompanhei-o várias vezes em tournées, por esse Portugal fora, dando a conhecer em terras, tantas vezes esquecidas, uma boa parte do nosso repertório musical, ópera e canção, abrangendo diversas épocas.

É que, entendia o Maestro e compreendo eu agora, ser Professor não é apenas transmitir conhecimentos; mais do que isso, é saber acompanhar o início de carreira dos seus alunos, incutir-lhes confiança, confrontá-los com o público, conduzi-los como uma espécie de Pai. E assim nasceu uma convivência prolongada e consequentemente um relacionamento humano, uma camaradagem de onde nunca esteve ausente um grande respeito e uma profunda admiração.

Director do Serviço de Música da R.T.P., manteve o raro talento de conciliar essas funções institucionais e não esquecer - ao contrário de muitos -, aquela solidariedade bonita e generosa com os seus antigos e próximos colaboradores, conciliando com sabedoria tudo o que de bom a vida pode oferecer-nos. É sobejamente conhecido o seu sentido de humor, tão peculiar, a sua riqueza espiritual e afectiva, o modo como aconchegava a alma dos que amava com aqueles pequenos mimos de que só os seres sensíveis captam o sentido profundo. Aquelas prendinhas com que nos distinguia, apenas comparáveis à flor silvestre que, arrancada de entre as pedras, colocamos nas mãos de quem nos é particularmente querido.

Depois, quem dos seus próximos não recorda o modo caloroso e informal como recebia os seus amigos na "Mandíbula de Aço", onde reunia, na sua ânsia e curiosidade intelectual, personalidades das mais variadas áreas da nossa cultura? Brincava-se, é certo, esse sentido de humor a que já aludi nunca o abandonava, mas aprendia-se sempre, através do debate de ideias e da troca de conhecimentos.

Acompanhei-o igualmente e por diversas vezes ao Oriente, era sempre óptima companhia, com aquela jovialidade que todos lhe conhecíamos e reconhecíamos. Digamos antes, com a mesma ciência da vida manifestada no modo como soube superar os altos e baixos que o passar do tempo nos vai reservando.

Uma das últimas vezes em que estivemos juntos foi na inauguração de uma exposição numa galeria de arte; cantei, nessa altura, algumas das suas composições e como esquecer a força e o calor daquele abraço, a terminar um espectáculo, é certo, mas sobretudo a selar uma amizade cúmplice de anos?

Finalmente, uma tarde triste e chuvosa de Novembro, um grito de alma sufocado … até sempre, Maestro.

Estoril, Julho de 2007

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