II Encontro de Macau

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Homenagem

Filipe de Sousa

Pianista, Compositor, Maestro, Investig

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por Fernando Serafim, tenor

por Fernando Serafim, tenor

In memoriam

Não era fotogénico, e não gostava muito de ser fotografado, mas tinha forte paixão pela fotografia - numa das nossas idas a Macau gastou um balúrdio em máquinas fotográficas - e foi grande amigo de um “mago” português da fotografia: Augusto Cabrita.

Irrequieto, inconstante, de feitio controverso, era por vezes de difícil convivência, porém sabia ser extremamente generoso, amigo do seu amigo, capaz de ajudar sempre que fosse preciso. Conheci-o pessoalmente logo que regressou da Alemanha, embora já o conhecesse de nome por ele ter sido co-autor, com o prof. Jorge Croner de Vasconcelos, dos programas das óperas das temporadas do Teatro Nacional de S. Carlos. Havia quem criticasse esses programas, porque os comentários desses dois músicos eram demasiados sucintos.

Criou-se entre mim e Filipe de Sousa uma enorme empatia. Convidou-me pouco depois do nosso primeiro encontro para com ele fazer concertos quer de música de câmara- foi ele o responsável pela apresentação em 1ª audição em Portugal de uma obra de Beethoven sobre poema de poeta português, apresentada no Palácio Foz- quer de música coral sinfónica (dirigiu o Requiem de Bomtempo, à memória de Camões, que pouca gente conhecia, na Igreja de S. Vicente de Fora), quer de óperas: as óperas minuto de Milhaud, quando desempenhava o cargo de director musical da RTP.

Apaixonado pelo séc.XVIII português, assumiu a pesquisa de grande parte  do material musical dessa época, existente na biblioteca do Palácio Nacional de Vila Viçosa. Passou dias e noites na revisão de partituras de óperas, muitas delas fragmentadas e sem o texto incluído na música, como era o caso de óperas de António José da Silva, o judeu/António Teixeira, o que tornou o seu trabalho verdadeiramente ciclópico. Foi até Goiaz, bem no interior do Brasil, à sua custa, para analisar o material de partituras de óperas existentes naquela cidade. E assim trouxe mais obras desses autores. As Variedades de Proteu com a sua revisão e direcção musical, já tinham sido levadas à cena no Teatro da Trindade. Também se interessou pela oratória: é exemplo disso a revisão da Paixão de Almeida Mota, que foi gravada em disco pela Fundação Calouste Gulbenkian, sendo eu um dos intérpretes. E ainda pela música contemporânea: as gravações existentes provam-no bem.

Como compositor, foi mais fadado para a música de câmara do que para a sinfónica, tendo escrito muitas canções para canto e piano sobre poemas de poetas portugueses, espanhóis, franceses, ingleses, alemães e americanos.

Natural de Moçambique, veio ainda jovem para a Metrópole, onde frequentou a Faculdade de Letras, tendo feito o bacharelato em Filologia Clássica e tirado o curso de piano e composição no Conservatório Nacional, após o que foi para a Alemanha, continuando lá os seus estudos de composição e de direcção de orquestra, obtendo os respectivos diplomas.

Casou com uma alemã, linda, que se sentia em Lisboa cheia de saudades de Munique. Não foi  um  matrimónio feliz.

Personalidade turbilhonante, não passava muito tempo no mesmo sítio: da RTP foi para Angola, voltando depois de novo para a RTP, e passado algum tempo tornou a embarcar para Angola, de onde teve que fugir, porque a situação no país era de permanente conflito. Foi professor no Conservatório Nacional e assessor da Dra. Madalena de Azeredo Perdigão no Serviço de Música da Fundação Gulbenkian e, também, director no Grupo de Ópera de Câmara (1ª tentativa para a profissionalização dos cantores portugueses, ideia de Madalena Perdigão. Infelizmente, o projecto durou pouco tempo).

Sossegou finalmente quando tomou conta do negócio que o tio lhe legou: a Casa Sousa. Comprou um terreno em Alcainça e aí construiu uma casa que é hoje pertença da Fundação Jorge Álvares, pois ele assim decidiu em testamento. É uma mansão com um património bibliográfico e musical valiosíssimo, com exemplares únicos. Nessa casa continuou a compor, embora em ritmo mais lento: surgiram as canções para barítono e conjunto instrumental e um quinteto de sopros, executado e gravado na Alemanha. Nos últimos tempos, fez a revisão de mais uma ópera da dupla Judeu/ António Teixeira (a partitura foi-lhe cedida por um amigo), cuja descoberta Filipe de Sousa revelou ao público numa conferência na Academia de Belas Artes de Lisboa, onde se contavam no público, para além de mim, cinco pessoas… No fim saiu comigo. Estava bastante triste!

Apoiou a publicação de livros como a biografia de Jorge Croner de Vasconcelos da autoria de Gil Miranda, e financiou a edição de partituras, sobretudo de Fernando Lopes-Graça, de quem se tornou um excelente intérprete e amigo.

Com Filipe de Sousa gravei em CD a 2ª série de Sonetos de Camões de Fernando Lopes-Graça e outro CD com obras suas sobre poemas de poetas portugueses e estrangeiros. A última canção com poema de Paul Éluard é-me dedicada.

Também com obras de Fernando Lopes Graça, apresentámos em Turim, num concerto promovido pela Universidade dessa cidade, sob os auspícios da cantora Carmélia Âmbar, (na mesma ocasião em que foram distinguidos com o grau de doutor “honoris causa José Saramago e Mário Soares), as Canciones de Tierras Altas, sobre poemas de António Machado, em 1ª audição absoluta, que foram depois apresentadas em 1ª audição em Portugal, no Palácio Foz, no dia 26 de Janeiro de 1996.

Participou comigo num concerto em minha homenagem na Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça, minha terra natal. Preenchemos o programa com obras suas. Foi um êxito.

Fascinado pelo Oriente, foi a Macau, e ficou maravilhado com essa cidade, estabelecendo forte amizade com o saudoso padre Áureo de Castro, fundador e director da Academia de Música de S. Pio X. Filipe de Sousa co-patrocinou uma série de concertos (um mini-festival) nessa Academia, em que convidou para intérpretes, por si acompanhados ao piano, as sopranos Elsa Saque e Filomena Amaro, o barítono José Oliveira Lopes e eu. Cantámos obras dele, de Lopes-Graça (em 1ª audição mundial a 2ª série de Sonetos de Camões e a versão completa da Clepsidra) e de Simão Barreto (compositor timorense e seu amigo, radicado em Macau), entre outros.

Com Elsa Saque, cantei igualmente em concertos no Palácio Galveias, em Lisboa e no Palácio da Bolsa, no Porto, com conjunto de câmara sob a sua direcção.

Com ele ao piano, cantei árias e duetos com Dulce Cabrita, nas comemorações do 2º Milénio de Virgílio, realizadas em Arganil; também com esta cantora, interpretámos, no Instituto Alemão, as Trovas de Francisco Lacerda, que Filipe de Sousa reviu (foram publicadas pela Fundação Gulbenkian). 

Era igualmente um leitor compulsivo: devorava livros, sobretudo os que continham relatos de epopeias marítimas. Também escrevia poesia em estilo pessoano, mas nunca deu valor a essa sua faceta criadora. Fez uma excelente tradução dos sonetos eróticos de um poeta italiano, que me deu para rever, livro que iria ser publicado no final deste ano.

Um dia, num assomo de fúria destrutiva, quis rasgar algumas das suas canções, a exemplo de outros compositores como Lopes-Graça e de escritores como Kafka. Entre elas estava a bela melodia sobre poema de Camilo Pessanha Floriram por engano as rosas bravas. Eu disse-lhe: pode destruir tudo o que quiser, mas esta canção está a salvo porque tenho uma cópia em casa. Olhou para mim estupefacto, pois já não se lembrava de ma ter oferecido. Mais tarde, agradeceu-me por eu ter abortado aquele momento de desvario.

Seguia a preceito a máxima de D’Annunzio: “ Só os prazeres dos sentidos dão sentido à vida”. Gostava muito de fazer almoçaradas com os amigos, comendo-se e bebendo-se sempre bem, e até abriu uma cantina, adjacente ao seu escritório, para os empregados da Casa Sousa, a que deu o nome de “Mandíbulas de Aço”. Aí acorriam amigos (e outros não tão amigos), e intelectuais portugueses e estrangeiros.

Perdia-se por facécias e por contar anedotas. Ficou na memória de muitos a história passada num restaurante em Espanha, aquando de uma “tournée da orquestra Gulbenkian, em que perguntou ao criado de mesa se havia ervilhas recheadas, ao que o criado, de pronto, lhe respondeu: “hoy, no! porque no es venido el mono”. Filipe gostou tanto da resposta que lhe deu uma avultada gorgeta. É conhecida também aquela partida que pregou a um amigo, que ía frequentemente almoçar à “Mandíbulas de Aço”. Depois de estarem bem empanturrados, ele dizia sempre ao amigo e a outros començais: “agora sabia bem um ensopado de borrego”. “Pois sabia”, respondia o amigo jocosamente. Até que um dia, num desses almoços, o ensopado apareceu mesmo como 2º prato! Sempre a magicar em brincadeiras, mandou fazer, para os amigos, canecas com a asa por dentro. Guardo uma.

Ficava feliz quando alguém mostrava por ele consideração e estima (que José Oliveira Lopes e eu lhe manifestámos sempre ao longo da vida). Lembro-me de, quando já estava internado no Instituto de Oncologia, ter recebido a visita de uma respeitável comitiva, constituída por José Saramago e sua mulher Pilar, pela cantora Carmélia Âmbar e pelo editor Zeferino Coelho. Ele ficou deslumbrado.

Pouco antes de adoecer gravemente, convidou-me para ir com ele ao Porto, durante um fim-de-semana para visitarmos a Casa da Música. No dia aprazado para essa visita, fomos almoçar à “Cooperativa dos Pedreiros” com o amigo comum José Oliveira Lopes (que nos acompanhou durante toda a estada no Porto) e o maestro da Orquestra do Porto. O almoço foi tão prolongado que, quando chegámos à Casa da Música, já tinha acabado a hora da visita…

Tinha três sobrinhos (duas raparigas e um rapaz, que conheci ainda adolescentes), filhos do seu único irmão. Viria a zangar-se com eles. Encontrei-os na missa de 7º dia do seu falecimento, na Basílica da Estrela. A mais velha veio ter comigo e disse-me: “ soubemos da morte do tio pelo jornal, e viemos aqui porque já lhe perdoámos”.

No dia 18 de Fevereiro de 2007, três dias depois da data em que completaria 80 anos, (não pôde ser no dia 15 porque a sala estava ocupada), Elsa Saque, José Oliveira Lopes e eu (dos seus colaboradores os mais amigos), acompanhados ao piano por Luísa da Gama Santos, participámos num concerto em sua homenagem, com o patrocínio do novo proprietário da Casa Sousa, Dr. Nuno Gonzaga Ferreira, sob a égide de “arsEventos-confraria de músicae do Gabinete de Projectos Especiais do Palácio Foz, dirigido pela Dra. Anabela Baptista. O concerto realizou-se na Sala dos Espelhos desse palácio e do programa constaram unicamente obras de Filipe de Sousa e de Fernando Lopes-Graça.

Setembro de 2007

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