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Homenagem

Filipe de Sousa

Pianista, Compositor, Maestro, Investig

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por Manuel Pedro Ferreira, musicólogo e compositor

por Manuel Pedro Ferreira, musicólogo e compositor

É-me difícil resumir as impressões de duas décadas de convívio com Filipe de Sousa, em que pude testemunhar a sua proverbial generosidade, invulgar cultura, rara lucidez e extraordinária competência artística. Não será este o lugar devido para fazer o balanço do seu contributo para o conhecimento da música portuguesa do século XVIII, de que revelou, editou e disponibilizou variadas fontes, ou do seu papel como criador, que desempenhou, a partir de certo momento, de forma esporádica, mas sempre com grande qualidade técnica e sensibilidade expressiva (partindo de uma sólida base neoclássica, mas adoptando progressiva e selectivamente, linguagens mais cromáticas). A sua presença na origem da Juventude Musical Portuguesa, e a marca que deixou na direcção musical da RTP estão ainda por documentar. A sua capacidade de leitura à primeira vista de partituras de orquestra era lendária. Não pude testemunhar o seu sucesso inicial como maestro, e só uma vez o ouvi num concerto público como pianista — mas que impressão de virtuosística clareza e densidade interpretativa então me causou! Acompanhei os seus esforços mecenáticos para a publicação e divulgação de música portuguesa do século XX, nomeadamente Lopes-Graça, colocando sempre a sua própria obra num segundo plano. De facto, Filipe de Sousa recusava qualquer acto de auto-promoção; à parte o convívio com alguns amigos e jovens interessados, escondia-se do mundo musical lisboeta, dando a impressão de que receava ser contaminado pela mediocridade e pelas trocas de favores aí correntes, ou ser lembrado dos dissabores que, em tempos, alguns dos seus agentes lhe haviam causado.

Evitava falar do passado; mas, por baixo do seu imenso sentido de humor, grassava uma profunda amargura, a de perceber que a rectidão e a largueza do coração, junto às maiores qualificações musicais, eram fracas defesas face à inveja, à pretensão e à maldade, e que o Portugal que ele conhecia — e é ainda, largamente, o nosso — era incapaz de reconhecer e tirar partido de quem só tinha, para dar, o melhor do género humano.

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