No 170.º aniversário do nascimento de Wenceslau de Moraes (1854-1929) – um esboço biográfico do escritor

Continuação

Macau nunca o seduziu. Os primeiros escritos denunciam estranheza pela situação da comunidade chinesa, referindo a população miserável e apátrida da vida fluvial, os pobres culis condutores dos jerinchchás que comparava aos rocins da Europa, o bizarro costume do pé cingido, apertado e deformado, o drama das half caste e os leprosos pustulentos, cenários deste exíguo penedo asiático, onde Portugal implantou a sua bandeira, como lhe chamou. Mas outra razão deve ter contribuído para algum desapego: o facto de ter sido preterido na nomeação para o cargo de Capitão dos Portos de Macau, o que o levou a mover influências para ser nomeado diplomata no Japão. Este desejo vem a concretizar-se em 1899, quando tomou posse do posto de Cônsul interino de Kobe e Osaka. Nesse mesmo ano casou-se, segundo o rito xintoísta, com a japonesa O-Yoné, um dos grandes amores da sua vida e com quem viveu até à sua morte em 1912. Em 1913, pediu ao Presidente da República a sua demissão de Cônsul-Geral de Portugal em Kobe e Osaka e foi viver para Tokushima com Ko-Haru, sobrinha de O-Yoné, que morreu de tuberculose em 1918, ainda muito jovem.

Nos últimos anos, experimentou um processo de niponização vivencial, em existência anónima, como qualquer japonês. Continuou sempre a enviar crónicas e artigos para revistas e jornais, como o Comércio do Porto, o Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa e The Japan Chronicle e escreveu muito sobre o Japão, que considerou ser o país mais belo do mundo. Numa carta a um amigo, confessou: Adoro esta natureza delicada que está sempre a rir. Adoro este povo delicado, e para mim (…) o mais sensato, o que melhor compreende a vida.

Morreu a 1 de Julho de 1929, deixando-nos uma obra extensíssima, de que destacamos: Traços do Extremo Oriente; Dai-Nippon; Cartas do Japão (Antes da Guerra), 1.ª série, 1902-1903; Cartas do Japão (Um Ano de Guerra), 2.ª série (1904-1905); A Vida Japonesa (3.ª série de Cartas do Japão, 1905-1906); O Culto do Chá; A Vida Japonesa; Relance da História do Japão; Serões no Japão; Relance da Alma Japonesa; O Bon Odori em Tokushima; O-Yoné e Ko-Haru; Paisagens da China e do Japão.

Num interessante livro que lhe dedicou, intitulado Peregrino, Armando Martins Janeira considera que a sua obra é a sua voz – nela condensou a sua vida, depositou os frutos da sua sabedoria. (…) Wenceslau nunca se preocupou com o êxito dos seus escritos (…), escrevia o que estava dentro de si tão natural e sincero como se a sua alma se diluísse na tinta. Como o canteiro que no granito corta o sonho das suas horas, ele esculpia em palavras que ao futuro entregava indiferente.

Escritor incansável, foi este o modo que escolheu para enfrentar a solidão e procurar uma felicidade nunca encontrada no exílio voluntário do Oriente e no desterro quotidiano em Tokushima. Nesta urbe, foi-lhe dedicado um monumento, tendo o mesmo acontecido em Kobe.

Tokushima atribuiu o nome do escritor a uma artéria da cidade e os amantes da sua literatura constituíram a “Associação Moraes”, que promove a obra e o homem.

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