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GENERAL VASCO JOAQUIM ROCHA VIEIRA

(1939 – 2025)

–  Macau, 1991-1999 –

 

A Fundação Jorge Álvares homenageia desta forma, nesta página do seu website, a memória do Senhor General Rocha Vieira, falecido no dia 22 de janeiro de 2025, último Governador de Macau e responsável pela criação de duas instituições, uma pública e uma privada, pela preservação e divulgação para as gerações futuras da história de Macau e da presença portuguesa no Extremo Oriente durante cerca de cinco séculos: o Centro Científico e Cultural de Macau e a Fundação Jorge Alvares, onde foi desde sempre um Curador muito ativo e permanentemente interessado na atividade da mesma.

Todos os elogios que lhe foram dedicados sobre a sua personalidade e a sua ação foram modestos para tudo o que lhe devemos nas várias missões que lhe foram atribuídas ao longo da sua vida.

A Fundação tinha no Senhor General Vasco Rocha Vieira um importante sustentáculo, e o seu apoio permanente e atenção à nossa atividade eram, sem dúvida, um importante incentivo para todos nós. Não é de esquecer o entusiasmo com que abraçava todos os projetos da Fundação no Centro Científico e Cultural de Macau e, muito em especial, o relativo à Galeria dos Governadores de Macau que foi aberta ao público no dia 19 de dezembro de 2024, 25 anos aos a transferência da Administração Portuguesa de Macau, e a que infelizmente já não pode assistir por se encontrar hospitalizado.

As responsabilidades da administração na condução da Fundação vêm-se assim reforçadas pela justíssima obrigatoriedade em honrar a sua memória no desenvolvimento e afirmação da Fundação Jorge Alvares dentro do quadro estatutário da sua missão.  

O General Vasco Rocha Vieira foi Governador de Macau num período decisivo e de especial importância para o território, 1991-1999, o último terço da transição para a República Popular da China.

Dificilmente tudo poderá ser dito sobre o General Vasco Rocha Vieira, e sobre a sua exemplar atividade cívica, militar e política em vários e distintos períodos decisivos para o País, não esquecendo a sua elevadíssima dimensão humana.

Na Fundação Jorge Álvares será sempre lembrado pelo compromisso inabalável com os valores e objetivos que orientam a instituição, a qual foi sempre acompanhando de perto ao longo dos 25 anos da sua existência.

Presidente da República honra a memória do General Vasco Rocha Vieira

22 janeiro de 2025

O Presidente da República manifesta o mais profundo pesar pelo falecimento do Senhor General Vasco Rocha Vieira, o último Governador de Macau e antigo Chefe do Estado-Maior do Exército.

O General Rocha Vieira foi um dos mais ilustres oficiais do Exército Português na transição para a Democracia e nas primeiras décadas da sua afirmação.

Desde sempre muito ligado aos Comandos, exerceu ainda funções políticas como as de Ministro da República para a Região Autónoma dos Açores.

Muito próximo do Presidente António Ramalho Eanes, foi também designado Chanceler das Antigas Ordens Militares pelo Presidente Aníbal Cavaco Silva.

O simbolismo do momento da transferência da administração portuguesa para a chinesa permanecerá na memória de muitos portugueses como um exemplo de sentido de Estado, sentido de serviço da causa pública e de marcado patriotismo.

O Presidente da República, que acompanhou de perto os últimos meses da sua vida, apresenta à sua Família, e, muito em especial, à sua viúva e filhos, o testemunho de gratidão de Portugal, com muito saudosa amizade.”

Foram muitos mais os testemunhos públicos institucionais, de entre as mais altas personalidades e instituições do País:

O General António Ramalho Eanes referiu-se ao General Rocha Vieira como “um homem de exceção pela sua ação de excelência e pela sua responsabilidade social assumida, merecendo ser, justamente, considerado um dos melhores dos nossos melhores”, lembrando-o como “um homem extraordinário, sobretudo a três níveis: pela sua personalidade, distintiva, pelo seu desempenho militar relevante e pelos serviços prestados ao País a nível político.”

O Prof. Aníbal Cavaco Silva, por seu lado, lembrou Rocha Vieira como uma “figura marcante cujo legado dignifica os últimos anos da presença portuguesa no Oriente, permitindo-nos deixar o território reconciliados com a nossa história e orgulhosos da obra que deixámos”, acrescentando “a importância das altas funções militares desempenhou, como Chefe do Estado-Maior do Exército, num período crítico de consolidação da democracia portuguesa, ente 1976 e 1978.”

Já o Primeiro Ministro Dr. Luís Montenegro se referiu a Rocha Vieira como “um dos mais brilhantes militares a dar corpo ao sentido patriótico de ser português, com especiais serviços na consolidação da nossa democracia e na ligação histórica e marcante a Macau, onde foi o último Governador.”

O Ministro da Defesa Nacional, Dr. Nuno Melo, em nota de pesar considerou o General Rocha Vieira “uma figura fundamental na história da segunda metade do século XX português, no plano militar e no plano político “; … “Todos recordamos a imagem icónica e patriótica de colocar a Bandeira de Portugal sobre o coração após esta ter sido arreada em Macau”,… “Teve também um papel importantíssimo na recondução das Forças Armadas à tutela civil e através disso, na consolidação do próprio regime democrático”; … “Reconhecido dentro e fora de fronteiras, …. deve ser considerado e honrado pelo Exército, pelas Forças Armadas e Pelo Estado”.

A Assembleia da República aprovou por unanimidade uma nota de pesar do Presidente José Pedro Aguiar-Branco, na qual é reconhecido o elevado testemunho de serviço, patriotismo e dedicação cívica do General Rocha Vieira, destacado oficial do Exército Português tão relevante na construção da nossa democracia, lembrando igualmente que “os portugueses recordam a imagem icónica do General Rocha Vieira na cerimónia de transferência da Administração de Macau, segurando a Bandeira de Portugal.”

O Embaixador da República Popular da China, Zhao Bentang, numa entrevista ao Diário de Notícias considerou Rocha Vieira “muito boa pessoa. Contribuiu muito para o sucesso do regresso de Macau à China e também para a continuidade da cooperação entre a China e Portugal. É uma pena.”

Também o Partido Socialista se referiu ao General Rocha Vieira enaltecendo uma vida “inteiramente dedicada ao serviço de Portugal”. Relativamente a Macau consideraram-no “um dos melhores intérpretes da importância daquele território para a relação entre Portugal e a República Popular da China”, referindo-se à cerimónia de transferência da Administração para RPC que Rocha Vieira “personificou e simbolizou a dignidade e o tributo à presença portuguesa ao longo de séculos em Macau.”

O Exército enalteceu o seu “legado de serviço e patriotismo”, considerando “estar de luto, por ter deixado de contar com um dos seus mais notáveis soldados. Mais consideraram que “a sua vida e o seu legado justificam um profundo reconhecimento e perene respeito pela sua memória, e constituem fator de motivação e orgulho para todos os que servem nesta secular instituição” e “que o seu legado de serviço e patriotismo continue a inspirar gerações futuras.”

O Regimento de Comandos, por sua vez, prestou uma homenagem na cerimónia de encerramento do 142.º Curso de Comandos, que teve lugar no dia 24 de janeiro.

A Câmara Municipal de Lisboa tornou públicas as suas condolências “lamentando o falecimento de um estadista de visão e homem de coragem que dedicou a sua vida à defesa do interesse”, acrescentando que “contribuiu para a consolidação do processo democrático, sendo peça fundamental do 25 de novembro de 1975.”. Também a Assembleia Municipal de Lisboa aprovou por unanimidade um voto de pesar pela morte do General Vasco Rocha Vieira, destacando “o seu exemplo de dedicação à pátria”.

Exprimindo o seu “profundo pesar pelo falecimento de Vasco Rocha Vieira, o lagoense que foi o último Governador de Macau”, e decretando luto municipal durante três dias, a Câmara Municipal de Lagoa “orgulha-se de ter sido a sua terra natal e lembra, com grande carinho e respeito a figura ímpar que Vasco Rocha Vieira foi para o nosso concelho. A sua vida e obra são um exemplo de dedicação ao serviço público e ao fortalecimento dos laços entre os dois países, Portugal e a China.” … “O seu legado ficará para sempre na memória coletiva dos lagoenses e de todos aqueles que o conheceram e acompanharam ao longo da sua carreira.”

A Câmara Municipal de Mafra, por seu lado, considerando as relações da Câmara com a FJA, reconheceu “o papel desempenhado pelo Senhor General Vasco Rocha, enquanto fundador e Curador da Fundação”, sublinhando ainda “o elevado sentido de missão evidenciado no exercício de funções públicas, nomeadamente enquanto antigo Chefe do Estado Maior do Exército e último Governador de Macau”.

As cerimónias fúnebres do General Vasco Rocha Vieira tiveram lugar na Capela da Academia Militar, no Paço da Rainha (Palácio Real da Bemposta), em Lisboa, que foi pequena para albergar as centenas de pessoas que o quiseram homenagear.

Entre elas o Presidente da República, Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, os ex-Presidentes General Ramalho Eanes e Prof. Doutor Aníbal Cavaco Silva, o Ministro da Defesa Nacional, Dr. Nuno Melo, e o Chefe do Estado Maior do Exército, General Eduardo Mendes Ferrão.

A missa de corpo presente que antecedeu a partida do cortejo fúnebre para a sua terra natal, em Lagoa, no Algarve, foi celebrada pelo Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério. No final da celebração usaram da palavra o filho mais velho, Pedro, o CEME, General Eduardo Mendes Ferrão, e o General Ramalho Eanes, tendo as últimas palavras sido do Presidente da República.

O Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa considerou que, após ter ouvido os testemunhos da Igreja, da Família, e dos Camaradas de Armas, encerrava os tributos em nome da Portugal. E neste contexto lembrou e agradeceu as três mais marcantes missões de serviço público do General Vasco Rocha Vieira, ao longo da sua brilhante carreira:

“Em primeiro lugar, aos 36 anos, entre 1976 e 1978, como Chefe do Estado Maior do Exército, onde enfrentou o desafio da integração do Exército no período após a revolução, longe da institucionalização democrática, tendo sido mais do que o militar, foi o representante de Portugal numa missão única, singular, num tempo único e singular da nossa história;

Em segundo lugar, aos 46 anos de idade, quando foi chamado a desempenhar o cargo de Ministro da República para a Região Autónoma dos Açores, vivia-se ainda o início da afirmação da Constituição e da democracia, a tensão entre a afirmação da República, a unidade do Estado, e a consagração da autonomia das Regiões dos Açores e da Madeira; e nesta função considerou que ele foi mais do que o militar, foi o representante da unidade do Estado Português na tensão difícil, complexa, mas inevitável, com a afirmação do estatuto autónomo da Região do Açores;

E finalmente como último Governador de Macau, no culminar do governo português de Macau, referindo-se ao arrear da bandeira portuguesa no Palácio do Governo, aquele instante que representou para milhões de pessoas o termo de uma história de muitos séculos de presença, de diálogo, de aculturação no Extremo Oriente, aquele seu gesto tão simples, mas tão profundo, simbolizou o que significa amar a Pátria; foi um gesto muito simples, do que eu fiz, mal ou bem, melhor ou pior, fiz ao serviço de Portugal. O Presidente terminou afirmando que o seu testemunho, como Presidente da República e como Comandante Supremo das Forças Armadas, foi o testemunho de Portugal, o testemunho da gratidão de Portugal a Vasco Rocha Vieira, do qual se poderia dizer, em momentos como este, o que disse a Rainha Isabel a Católica do Príncipe Perfeito: Morreu o Homem.”

Ainda antes da partida do cortejo fúnebre para o Algarve teve lugar, no exterior da Capela do Palácio Real da Bemposta, uma cerimónia de honras militares fúnebres prestadas por uma Companhia do Exército, com Estandarte e Banda e três salvas de tiros.

A missa de sétimo dia foi celebrada na Capela da Academia Militar, no dia 28 de janeiro, pelo Cardeal D. Manuel Clemente, na qual foi lido um notável e bonito testemunho do Cardeal D. José Tolentino de Mendonça, que se reproduz:

“Vasco Rocha Vieira: a lição de um rosto

Um dos primeiros tratados dedicados exclusivamente à arte do retrato foi escrito pelo português Francisco de Holanda. Ao seu tratado sobre o retrato, uma obra de 1549, Francisco de Holanda atribuiu este título curioso, “Do tirar pelo natural”. Não nos equivoquemos, porém: o retrato nunca seria para ele uma mera reprodução. Um uso em voga na sua época era servir-se para os retratos não da luz do sol, mas do lume de uma candeia, pois acreditava-se que isso oferecia maior profundidade aos traços do rosto. E, andando nesse sentido, o próprio Francisco de Holanda recomendava que o pintor não se ficasse apenas pela descrição daquilo que veem “os nossos olhos visíveis”.

Como amigo da família posso dizer que tive o grande privilégio de conhecer o rosto do Vasco iluminado por aqueles reflexos onde a intimidade crepita. Não era diferente do seu rosto de monumental servidor fixado pelo sol. Mas vê-lo ao lado da sua mulher Leonor era poder contemplar ao mesmo tempo o exterior e o interior; era escutar o inteiro mundo e a casa, a sua língua e o seu dialeto; era descobrir, por exemplo, que o segredo do seu incondicional amor à pátria baseava-se também na experiência dessa pátria incondicional que foi a cada momento, para ambos, simplesmente o amor.

À luz do sol, o seu rosto tinha, como sabemos, uma autoridade que parecia naturalmente desenhada. Mas contemplá-lo ao lado dos filhos, adultos também eles, escutando-os atentamente, dando-se tempo para surpreender-se com eles, para viver as suas alegrias ou abraçar solidário as suas buscas permitia-nos compreender que a autoridade mais alta é talvez essa aprendizagem incessante para colaborar sem reservas na gestação que cada um é chamado a fazer de si mesmo.

À luz do sol era, na verdade, inquebrável. Mas os netos rompiam-no facilmente, irrompiam dentro da sua disponibilidade total e fascinada, acresciam-no sem os limites da idade. Sabia ser espontâneo e feliz ao lado deles como se também ele principiasse.

Por muitas razões, Portugal guardará dentro de si, nas páginas da sua história, o rosto exemplar do homem que foi o General Vasco Rocha Vieira, visível aos olhos de todos. E é justo que seja assim. Mas aquelas e aqueles que tiveram o privilégio da sua amizade, e puderam também ver para lá do visível, poderão testemunhar quanto a lição desse rosto constitui um motivo de gratidão e um dever.

Obrigado, Senhor, pela vida do Vasco.

Cardeal José Tolentino Mendonça”

 










Texto de Alfredo Gomes Dias in Galeria dos Governadores de Macau, Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, aberta ao público a 19 de dezembro de 2024 com o apoio mecenático integral da FJA.



O último Governador de Macau, Vasco Joaquim Rocha Vieira, tomou posse, em Lisboa, no dia 23 de abril de 1991. No entanto o seu primeiro contacto com a realidade do Território ocorreu quando exerceu funções militares e governativas entre 1973 e 1975.

Mantendo o texto da Declaração Conjunta como documento orientador da sua ação política, Rocha Vieira definiu três grandes objetivos: garantir que o processo de transição ocorria numa lógica de continuidade, preservando a estabilidade política e social do território; promover a autonomia de Macau, facilitando a sua integração no “segundo sistema”; e afirmar a identidade de Macau, realçando as potencialidades da sua singularidade histórica e sociocultural.

No que respeita ao primeiro objetivo, o Governador promoveu um processo de integração dos funcionários da Administração Pública de Macau (APM), de modo a responder positivamente às suas legítimas expectativas, e garantiu o direito à nacionalidade portuguesa a todos os membros da comunidade macaense, que o desejassem.

No capítulo da autonomia, Rocha Vieira assumiu diversas iniciativas no sentido de promover o desenvolvimento de uma rede de infraestruturas – Grandes Obras –, destacando-se a construção do Aeroporto Internacional de Macau. Ainda no âmbito da construção da autonomia de Macau, importa salientar a conclusão dos processos de localização da língua, dos quadros e das leis, e a integração de Macau em estruturas internacionais, como a adesão aos Pactos Internacionais sobre os Direitos Económicos e Sociais e Culturais e sobre os Direitos Civis e Políticos.

Finalmente, quanto ao objetivo relacionado com a identidade de Macau, o Governador Rocha Vieira disponibilizou apoios a diversas instituições de matriz cultural portuguesa, nomeadamente as que se relacionavam com a comunidade macaense; criou estruturas de suporte para a preservação da memória histórica, como, por exemplo, o Museu de Macau; ofereceu condições que garantissem a continuidade da Igreja Católica no Território; e criou estruturas de apoio à educação e cultura portuguesas, como foi o caso da criação da Escola Portuguesa de Macau e do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa.

Todo este trabalho, concretizado pela ação estratégica de Rocha Vieira, assentou num diálogo construído com as autoridades chinesas numa base de confiança e respeito mútuos, assumindo a diferença de perspetivas, portuguesa e chinesa, mas ambas concorrendo para o que se considerava ser o melhor interesse de Macau.

Em 19 de dezembro de 1999, o último Governador de Macau, Vasco Joaquim Rocha Vieira, concluiu o processo de transição da administração do Território, encerrando, deste modo, um longo capítulo da História de Portugal.




O primeiro discurso do Governador Vasco Rocha Vieira no território de Macau, na manhã do dia 10 de maio de 1991, no Palácio do Governo

Senhor Encarregado do Governo:

Agradeço as palavras de caloroso acolhimento e simpatia que me dirigiu nesta sessão de boas-vindas.

E quero publicamente voltar a referir o apreço que manifesto pelo trabalho realizado com senso e inteligência por V. Exa. como Encarregado do Governo e pelos Secretários-Adjuntos durante um período difícil e delicado da Administração do Território.

  • Senhor Presidente da Assembleia Legislativa de Macau,
  • Senhor Doutor Juiz Decano,
  • Senhores Secretários-Adjuntos,
  • Senhor Procurador-Geral-Adjunto,
  • Bispo de Macau, Excelência Reverendíssima,
  • Senhores Presidentes das Câmaras,
  • Senhor Vice-Presidente da Assembleia Legislativa de Macau,
  • Senhores Deputados à Assembleia Legislativa de Macau,
  • Senhor Director da Agência Nova China,
  • Minhas Senhoras e meus Senhores:

As minhas primeiras palavras dirigidas à população residente no território de Macau são palavras de confiança.

Antes do mais, confiança na sua capacidade de realização num mundo em rápida mudança.

Tudo o que muda provoca incerteza e estimula ansiedade.

Mas o que muda é também a origem de grandes oportunidades.

Importante é que se tenha o espírito aberto para os sinais que anunciam o futuro, que se tenha a capacidade de trabalho para realizar as ambições que estão ao nosso alcance, que se tenha o sentido de tolerância para não se ficar preso em fórmulas rígidas que a força das mudanças vem mostrar que eram, afinal, apenas verdades relativas a um certo período histórico.

A população residente em Macau há muito provou que tem capacidade de trabalho, que tem sentido de tolerância, que sabe aproveitar as oportunidades que as mudanças lhe oferecem.

Uma vez mais, estou certo que saberemos responder às novas mudanças que se anunciam e em que naturalmente se insere, sem rupturas bruscas e sem instabilidade ou insegurança, a mudança anunciada para o território de Macau.

Em segundo lugar, confiança em que saberemos, com uma direcção política segura, construir um sistema político próprio de Macau, que se prolongará no futuro como factor de segurança, de estabilidade e de participação responsável nos trabalhos de desenvolvimento e de progresso.

Esta é uma das grandes obrigações expressas na Declaração Conjunta do Governo da República Portuguesa e do Governo da República Popular da China sobre a questão de Macau.

Mas justamente porque é uma obrigação expressa, é também a melhor garantia de estabilidade nestes tempos de mudança que acontecem em todas as zonas do mundo, criando novas realidades e fazendo nascer novas contingências.

Aqui, no território de Macau, sabemos bem o que queremos realizar para que haja um sistema político próprio, baseado na separação de poderes entre o Poder Executivo, personalizado no Governador, e o Poder Legislativo, exercido pela Assembleia Legislativa.

É nossa obrigação mostrar as virtualidades deste sistema político próprio, e estou certo que ninguém esquecerá, em nenhum momento e em nenhuma circunstância, a importância vital deste objectivo para que o futuro não seja um motivo de dúvida e de ansiedade.

A legitimidade política que a escolha do Presidente da República Portuguesa me transmite assegura a condição primária da estabilidade da direcção política dos assuntos do território de Macau.

A acção política que aqui se desenvolve, seja na consolidação de um sistema político próprio, seja na promoção do desenvolvimento e do progresso, seja no permanente reforço das relações de amizade e de cooperação com a República Popular da China, corresponde a um desígnio nacional da política portuguesa que tem a garantia de uma efectiva solidariedade institucional.

Estou certo – e recebi todas as garantias necessárias para reforçar o que já era a minha convicção natural – que não faltará a Macau a expressão dessa solidariedade institucional dos órgãos legítimos do Poder político em Portugal.

Não haverá que recear – como muitas vezes se tem insinuado – que quaisquer circunstâncias da política portuguesa se repercutam negativamente no percurso de Macau na construção do seu futuro.

Façamos nós, aqui, o que tem de ser feito e não haverá nenhuma dificuldade em conjugar o que aqui fazemos com a realização dos interesses nacionais de Portugal.

Também palavras de confiança na capacidade própria de orientação e de estabilização que um projecto de desenvolvimento e de modernização certamente oferecerá a Macau e aos seus residentes.

O marco histórico de 1999 está perfeitamente definido.

Mas as sociedades, as economias, os programas de desenvolvimento e de modernização, os sistemas políticos e judiciários próprios têm continuidade para além do seu marco histórico, têm uma dinâmica que lhes é específica.

Quando os caminhos delineados estão certos, quando os seus resultados são úteis para as populações e para as relações de amizade e de cooperação entre os povos, as políticas e os sistemas continuam depois de realizadas as necessárias adaptações que os marcos históricos, como será para Macau o de 1999, exigem.

É para este objectivo de continuidade do que é essencial que temos de concentrar os nossos esforços, as capacidades e os talentos que existem ou estão ao alcance dos residentes no território de Macau.

Provada a validade dos nossos projectos, demonstrada a sua integração nas mudanças que estão em curso no Mundo moderno, esses projectos continuarão muito para além dos marcos históricos que agora conhecemos.

E não se deve esquecer, nem desvalorizar, a importância do papel que esses projectos de futuro terão para realizar a convergência eficaz dos múltiplos interesses que existem no território de Macau.

Mesmo quando há uma sincera vontade de entendimento, é difícil manter essa convergência de interesses em torno de princípios abstractos.

Pelo contrário, a elaboração participada de projectos concretos de desenvolvimento e de modernização, de cooperação efectiva com a República Popular da China e de efectiva abertura de Macau às correntes da economia mundial, facilitará o entendimento, permitirá superar incertezas, consolidará o sentido de futuro que é indispensável à continuidade.

Justifica-se, por isso mesmo, expressar a minha confiança na capacidade das entidades representativas da diversificada comunidade residente em Macau.

É desta capacidade que, em última análise, depende a realização dos projectos de desenvolvimento e de modernização que colocam Macau na rota do futuro.

A direcção política pode abrir caminhos, orientar estratégias, organizar recursos, abrir vias de cooperação, mas não se pode substituir à vitalidade criadora dos agentes sociais e económicos.

E é justamente porque acredito na capacidade de trabalho criativo e organizado dos residentes no território de Macau que espero encontrar nas suas associações representativas uma vontade de participação na abertura dos caminhos do futuro, com sentido de diálogo, de tolerância, com a vontade firme de preservar a estabilidade e a segurança.

No meu entendimento das exigências políticas, a firmeza da decisão não é incompatível, antes recomenda, o diálogo participado, a superação das diferenças, a consideração serena da importância relativa de cada objectivo.

Mas é também porque valorizo o diálogo e a participação que considero essencial que cada proposta ou sugestão que seja objecto desse diálogo participado respeite as exigências da reflexão ponderada, do estudo sério das condições de realização, da obrigação de respeitar as finalidades últimas de estabilidade, de segurança e de continuidade.

Palavras de confiança, enfim, para o sentido profissional de todos os que estão integrados na administração pública e que escolheram continuar em Macau para trabalhar na construção do futuro do Território.

Também deles depende o nosso sucesso, porque neles se concentra o enorme desafio de estruturar serviços administrativos que possam superar o teste difícil do marco histórico de 1999.

Está aqui um dos factores essenciais da continuidade, a condição de base para que possa consolidar-se a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China, respeitando a singularidade própria de Macau de acordo com o princípio «Um País, dois sistemas».

É um desafio difícil, mas é um desafio que tem de ser vencido para benefício de todas as partes e, em primeiro lugar, para vantagem e segurança dos residentes de Macau.

Estou certo que a consciência da dificuldade do desafio será o melhor factor de motivação para os que escolherem ficar em Macau neste período que gradualmente nos aproximará do marco histórico de 1999.

Também aqui é a importância própria do projecto que contribuirá para superar dificuldades e para remover obstáculos, pois não há outra atitude possível que não seja a procura do sucesso.

São palavras de confiança que se justificam no que conheço de Macau, por experiência pessoal e porque nunca deixei de acompanhar, ainda que à distância, a sua evolução.

Porém, mais importante do que a experiência e o conhecimento pessoal, é a minha convicção de que Macau tem o sentido da História do seu lado.

As mudanças em curso no Mundo moderno – nas ideias, nas políticas, nas economias, nas tecnologias, nas exigências de mais intensa cooperação – são favoráveis a Macau.

Por isso, confio firmemente em que, quando passarmos o marco histórico de 1999, a população residente em Macau terá oferecido um contributo decisivo para o reforço das relações de amizade e de cooperação entre Portugal e a República Popular da China, justamente porque se terá assegurado a viabilidade futura da Região Administrativa Especial da República Popular da China.

Disse-vos palavras de confiança que considero justificadas por uma avaliação serena dos quadros de possibilidades que temos à nossa frente.

Mas também vos quero dizer palavras de responsabilidade.

Como acontece com todas as moedas sólidas, a confiança que merecem está relacionada com a responsabilidade que representam.

Por isso, devo associar as razões de confiança ao correlativo reconhecimento das responsabilidades.

Temos pouco tempo, como é para todos evidente.

Compreende-se, portanto, que considere ser nossa responsabilidade não o desperdiçar em questões secundárias e, sobretudo, em querelas que seriam certamente inúteis quando comparadas com a importância dos desafios que temos a vencer.

Por outro lado, é importante que se reconheça que estamos perante uma experiência de tipo novo, sem precedente na história política.

Contribuir para a consolidação de um dos dois sistemas que integrarão um só país, a República Popular da China, não tem quadro comparativo de referência que nos auxilie.

Não ignorando a dificuldade da tarefa, sabemos que temos de conseguir, com realização simultânea na proximidade de 1999, a viabilidade do sistema de Macau e a sua compatibilidade com os interesses e a realidade política da República Popular da China.

Estas são as condições que delimitam o nosso caminho.

Mas o sucesso no termo do prazo que temos à nossa disposição constituirá um prémio de enorme importância.

Para Portugal, esta experiência inédita constituirá um capital inestimável para a sua afirmação no Mundo moderno.

O que soubermos fazer em Macau será a melhor prova da nossa capacidade de cooperação adaptada às circunstâncias, respeitando as singularidades das realidades locais.

Para a Comunidade Europeia no seu conjunto, a que pertencemos em plenitude e a que vamos presidir no próximo ano, esta é uma oportunidade única, valorizada pela rapidez das mudanças e pelas excepcionais condições de cooperação económica que caracterizam esta importante região no Mundo.

Para a República Popular da China, esta será uma das vias de que dispõe, porventura das mais promissoras, para realizar o seu objectivo de abertura económica às correntes da modernidade e do desenvolvimento.

Minhas senhoras e meus senhores.

Como Governador de Macau, é minha obrigação saber ouvir, mas é minha responsabilidade decidir.

Espero saber cumprir estas duas exigências do meu cargo e conto com a ajuda de todos na realização dos objectivos globais que vos apresentei.

Sei que a tarefa é difícil e complexa, mas também não ignoro que temos a nosso favor importantes condições de sucesso se não as desperdiçarmos em hesitações ou dúvidas inconsequentes.

Com a confiança e o sentido das responsabilidades de que vos falei, estou certo que poderemos realizar as nossas grandes finalidades e que, desse modo – e só desse modo – teremos concretizado o reforço das relações de amizade, o desenvolvimento de programas de cooperação e a vontade de entendimento entre Portugal e a República Popular da China.

Assim conseguiremos assegurar a estabilidade do território de Macau e um futuro de prosperidade, de abertura e de modernização para a Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China.

Por fim, a minha palavra de muita amizade para todos os residentes em Macau.

É para eles que venho trabalhar e é a pensar no seu futuro que são elaboradas as grandes linhas orientadoras que nos vão guiar.

Os objectivos políticos só têm mérito e só têm condições efectivas de realização quando afirmam a dignidade humana, quando promovem a comunidade de culturas, quando defendem a estabilidade, a paz e o progresso.

É com grande confiança e esperança que me proponho, com a vossa ajuda, com o vosso sentido de participação e com a vossa capacidade de realização, consolidar os caminhos do futuro, assegurando a estabilidade e a serenidade que são essenciais para a modernização e para a afirmação da identidade própria de Macau.

Muito obrigado.


O último discurso do Governador Vasco Rocha Vieira no território de Macau, ao final da tarde do dia 19 de dezembro de 1999, na Sessão Cultural

Hoje é um dia de esperança para Macau, um dia de afirmação e de orgulho para Portugal, um dia de afirmação e de orgulho para Portugal, um dia de festa para a República Popular da China. 

Vivemos agora mais um acontecimento que se integra numa história longa de mais de quatro séculos, assumindo com honra tudo o que foi feito numa relação de cooperação, de entendimento e de amizade entre Portugal e a China nesta Cidade do Nome de Deus de Macau.

Recordando este longo percurso feito em comum, invoco todas as gerações que nesta terra viveram e trabalharam, todos os que aceitaram o fascínio da pérola do Oriente, todos os que souberam compreender a sua mensagem e que para sempre aqui deixaram as suas memórias, os seus traços, os seus sonhos, as suas obras.

Os primeiros portugueses que aqui chegaram, navegadores de mares desconhecidos, sentiam o que nos disse Fernando Pessoa

Trago dentro do meu coração,

Como num cofre que se não pode fechar de cheio,

Todos os lugares onde estive,

Todos os portos a que cheguei.

Todas as paisagens que vi através de janelas e vigias,

Ou de tombadilhos, sonhando,

E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

Ontem, como hoje e como amanhã, o que os portugueses navegadores sempre querem é a procura do entendimento, a vontade da cooperação, a construção do que é novo.

Como nos disse o poeta, iluminando o passado e o futuro

“Éramos essencialmente navegadores e descobridores, e só derivada e corolariamente homens de conquista e de colonização. Antes de sermos imperialistas, já éramos universalistas.”

Sempre fomos, como continuamos a ser, universalistas no nosso projecto de conhecer o mundo nas suas múltiplas direcções, nos seus muitos povos, e nas suas várias culturas.

Sempre fomos, como continuamos a ser, construtores do futuro, respeitadores do que é humano, abertos ao que é diferente.

Hoje, em Macau, realiza-se Portugal.

Hoje é um dia de festa para a República Popular da China.

Mas também é a oportunidade para que todos os portugueses que alguma vez aqui viveram se unam na memória do que foi o primeiro encontro entre portugueses e chineses.

Nunca se encontrou tratado que formalizasse as responsabilidades por ambas as partes assumidas, mas a evidência da História de mais de quatro séculos define a verdade indesmentível que foi sempre única e especial a nossa relação.

Quando a ousadia dos navegadores do extremo ocidental da Europa os trouxe até ao Grande Império do Meio não havia senão o desejo do encontro, a vontade do entendimento.

Não havia, não podia haver, confronto e hostilidade, vontade de domínio ou espírito colonial.

Só havia, só podia haver, a vontade de compreender as diferenças, fazendo delas a força da cooperação criando a realidade singular, sem precedente nem comparação, que é Macau.

Hoje, a Cidade do Nome de Deus de Macau, que gerou dentro de si a Região Administrativa Especial de Macau, pode justamente orgulhar-se de ficar como o monumento vivo, multissecular, que transporta para sempre a memória do nosso primeiro encontro e o projecta no fututo distante.

Será o povo de Macau que conduzirá, a partir de agora, os seus destinos, com os seus sistemas político e judicial próprios, que lhe garantem a sua singularidade dentro da grande nação chinesa, preservando o seu modo de vida e os seus direitos essenciais, que os portugueses aqui deixam como testemunho cultural da sua presença.

Fica com as bases necessárias, nas infra-estruturas e nas organizações, para poder ser uma sólida e eficaz plataforma de cooperação com todas as regiões do mundo, especialmente com a Europa, contribuindo assim, com utilidade, para a modernização, desenvolvimento e abertura da China.

Ao desejar ao Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial de Macau, Dr. Edmund Ho, e a todos os seus colaboradores, as maiores felicidades, peço para eles o que para mim pediria, que a fortuna e a virtude os acompanhem, para bem e felicidade de todos os que vivem em Macau.

Termino agora as minhas funções que exerci, por decisão do Senhor Presidente da República, de acordo com o meu sentido de dever, valorizando Macau e deixando abertas as perspectivas do futuro.

Posso dizer, como os navegadores portugueses, que “tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero”.

Porque o que mais quero, como os primeiros portugueses que aqui chegaram, é que tudo possa permanecer mesmo quando tudo muda, pois esse é o verdadeiro sentido do entendimento e da cooperação, da amizade entre os povos e da mistura das culturas.

Despeço-me das gentes da Cidade do Nome de Deus de Macau, que admiro e respeito.

Parto com saudade.

Com a certeza

De ter deixado atrás parte de mim,

E saudade de não ter saudade,

Saudade dos tempos em que a tinha.

Saudade de Macau.

Saudade do seu futuro.

Até sempre.


Vasco Joaquim Rocha Vieira nasceu em Lagoa no dia 16 de agosto de 1939. Casou com Maria Leonor de Andrada Soares de Albergaria com quem teve três filhos, Pedro, João e Filipe.

Passou grande parte da sua infância em Moçambique, para onde partiu com os pais, com um ano de idade.

Depois de ter frequentado o Colégio Militar, para onde entrou em 1950 e onde fez os estudos secundários, ingressou na Escola do Exército em 1956. Prosseguiu os seus estudos no Instituto Superior Técnico onde se licenciou em Engenharia Civil. Recebeu o Prémio Alcazar de Toledo, atribuído ao finalista melhor classificado de todos os alunos da Academia Militar, bem como o Prémio Marechal Hermes do Brasil, com idêntico significado.

A sua carreira militar desenvolveu-se em diversas Unidades ou Quartéis-Generais, tanto no Continente como no Ultramar. Realizou a sua primeira comissão de serviço em Angola, de 1965 a 1968. Cinco anos depois, iniciou a segunda comissão que o levou, pela primeira vez, a Macau (1973-1975).

Entre estas duas missões militares colaborou com a Câmara Municipal de Lisboa (1969 a 1973) e lecionou na Academia Militar no ano de 1968/1969. Mais tarde, viria a retomar a atividade docente no Instituto de Altos Estudos Militares, no ano letivo de 1983/1984.

Rocha Vieira integrou o núcleo original de oficiais das Forças Armadas Portuguesas promotor, em 25 de Abril de 1974, da instalação do regime democrático em Portugal, bem como o grupo de oficiais que, em 25 de novembro de 1975, neutralizou a tentativa de radicalização do jovem regime democrático português.

Após o “25 de Abril”, deu continuidade à sua carreira militar como Diretor da Arma de Engenharia (1975/1976). Assumiu, com 36 anos de idade, as funções de Chefe do Estado-Maior do Exército (1976/1978), cargo que, por inerência, lhe deu lugar no Conselho da Revolução.

De 1978 a 1982 cumpriu uma nova missão que aliava, à componente militar, uma outra de carácter diplomático: representante militar nacional junto do Comando Aliado da Europa/OTAN (NATO Supreme Headquarters Allied Powers in Europe – SHAPE), em Mons, Bélgica.

De regresso a Portugal, Rocha Vieira ocupou o cargo de Subdiretor do Instituto de Defesa Nacional entre 1984 e 1986 e, neste último ano, partiu para os Açores como Ministro da República, função que exerceu até ter aceite o convite presidencial para assumir a governação de Macau, em 1991. Ainda nos Açores foi promovido ao posto de Tenente-General.

Quando Rocha Vieira partiu para Macau não foi ao encontro de uma terra estranha, na medida em que, entre 1973 e 1975, já aí tinha desempenhado as funções de Chefe do Estado-Maior do Comando Territorial Independente (1973/74) e de Secretário-Adjunto para as Obras Públicas e Comunicações do governo de Macau (1974/75).

Em 1991 iniciou um segundo período do seu percurso político-militar em Macau: tendo sido nomeado Governador de Macau em 1991, pelo Presidente Mário Soares, foi confirmado no cargo em 1996, após a eleição do Presidente Jorge Sampaio, função que exerceu até à transferência da soberania de Macau para a República Popular da China, em 19 de dezembro de 1999. Durante a sua estada em Macau, o Exército Português nomeou-o, em 1995, Diretor Honorário da Arma de Engenharia.

Vasco Rocha Vieira foi ainda:

– Membro do Conselho Supremo da Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar.

– Membro do Conselho Supremo da Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

– Representante de Portugal da Asia-Europe Foundation, entre 2002 e 2011.

– Chanceler das Antigas Ordens Honoríficas Portuguesas, de 2006 a 2016.

– Membro do Conselho de Honra do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

– Membro do Advisory Board da Nova School of Business and Economics da Universidade Nova de Lisboa, desde 2011.

– Membro Conselheiro da Ordem dos Engenheiros.

– Membro da Academia de Engenharia.

– Sócio Honorário da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Liga dos Combatentes e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, de entre outras instituições.

– Cidadão Honorário da cidade de Macau.

– Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.

– Membro da Irmandade Militar de Nossa Senhora da Conceição de Lamego. – Cavaleiro da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém.

De entre os vários cursos e especialidades destacam-se o Curso Geral de Estado Maior (1969/1970), o Curso Complementar de Estado-Maior (1970/1972), o Curso de Comando e Direção para Oficial General (1982/1983), e o Curso de Defesa Nacional (1984).

Por outro lado, ainda, o Desporto ocupou uma parte importante da sua vida. Foi dirigente do CDUL – Centro Desportivo Universitário de Lisboa – em 1962/1964, e praticante desportivo de várias modalidades, nomeadamente atletismo, futebol, râguebi, paraquedismo, mergulho, ténis e golfe. Foi campeão universitário nacional de futebol, campeão universitário nacional de râguebi e campeão nacional de paraquedismo desportivo.

Recebeu a Medalha de Ouro da cidade de Lagoa, sua terra natal, a Medalha de Ouro da Universidade Católica Portuguesa e a Cruz de Agradecimento de 1ª. Classe Grau Ouro do Corpo Nacional de Escutas.

Ao longo da sua carreira, Vasco Joaquim Rocha Vieira, foi agraciado com várias condecorações nacionais e estrangeiras. Entre outras comendas nacionais, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, o grau de Comendador da Ordem Militar de Aviz, e a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.

No âmbito da sua vida militar, recebeu a Medalha de Serviços Distintos, Ouro e Prata, a Medalha de Mérito Militar, 1ª e 3ª Classes, e a Medalha de Comportamento Exemplar, Ouro e Prata.

Entre outras distinções estrangeiras, foi condecorado com o grau de Grande Oficial da Ordem de Leopoldo da Bélgica, com a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco do Brasil, com a Ordem de Mérito dos Estados Unidos da América, com o grau de Comendador da Legião de Mérito de França e com a Grã-Cruz da Ordem do Tesouro Sagrado do Japão.

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Para além dos apoios sistemáticos ao longo dos anos, entre outros, para exposições, conferências e colóquios, edições conjuntas, e cursos de língua chinesa, a Fundação Jorge Álvares, entre 2022 e 2024, promoveu e financiou três grandes projetos: em 2024, a criação da Galeria dos Governadores de Macau, em 2023 a criação do Fundo Documental dos Governadores de Macau, e em 2022 a reinstalação definitiva da Biblioteca do CCCM. A Fundação tem ainda em depósito permanente no Museu do CCCM parte da sua coleção de obras de arte.

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